AS MÃOS FALAM

Segundo Montesquieu (apud Maupassant, 1997, p. 56), um órgão a mais ou a menos em nossa máquina teria feito de nós uma outra inteligência. Maupassant, em seu conto ‘Carta de um louco’, reflete sobre a tese acima, defendendo que todas as idéias de proporção são falsas, já que não há limite possível, nem para grandeza nem para a pequenez.

(…)a humanidade poderia existir sem a audição, sem o paladar e sem o olfato, quer dizer, sem nenhuma noção do ruído, do sabor e do odor. Se tivéssemos, portanto, alguns órgãos a menos, ignoraríamos coisas admiráveis e singulares; mas, se tivéssemos alguns órgãos a mais, descobriríamos em volta de nos uma infinítude de outras coisas de que nunca suspeitaríamos por falta de meios de constatá-las. (apud Maupassant, 1997, p.56-57)

Se nenhum ser humano é igual ao outro, podemos concluir que ser surdo não é melhor ou pior que ser ouvinte, mas diferente. Pimenta (2001, p.24), ator surdo brasiliense, declara que a surdez deve ser reconhecida como apenas mais um aspecto das infinitas possibilidades da diversidade humana, pois ser surdo não é pior ou melhor que ser ouvinte, é apenas diferente. Se considerarmos que os surdos não são ‘ouvintes com defeito’, mas pessoas diferentes, estaremos aptos a entender a diferença física entre pessoas surdas e pessoas ouvintes que gera uma visão não-limitada, não determinísta de uma pessoa ou de outra, mas uma visão diferente de mundo, um ‘jeito ouvinte’ e um ‘jeito de ser’, que nos permite falar em uma cultura da visão e outra da audição.